MSc. Jeferson Sigales, doutorando PPGA-FURG.
A discussão sobre Cidades Inteligentes tem sido amplamente pautada pela dimensão tecnológica, com foco em eficiência, conectividade e automação. Contudo, para além da tecnologia, é fundamental compreender o caráter social, político e emancipatório que deve orientar esse processo. Nesse sentido, os aportes teóricos de Pedro Demo oferecem bases para repensar o papel do Design Estratégico como mediador na construção de cidades que sejam não apenas mais conectadas, mas sobretudo mais humanas, inclusivas e sustentáveis (Giffinger et al., 2007; Zurlo, 2010).
Pedro Demo rompe com a noção de ciência como prática neutra e meramente técnica. Para ele “A ciência não é neutra, nem se resume a técnicas de investigação. Ela é um processo crítico, marcado por escolhas, interesses e compromissos sociais” (Demo, 1995). Essa compreensão significa que toda prática científica carrega implicações políticas e deve ser avaliada também pelo impacto social que produz. No campo do Design Estratégico e das Cidades Inteligentes, isso implica questionar soluções que priorizam apenas eficiência técnica sem considerar desigualdades e inclusão social. Um dos conceitos mais conhecidos de Demo é o de educar pela pesquisa, no qual aprender significa produzir conhecimento e não apenas reproduzi-lo (Demo, 1995). Aplicado às cidades inteligentes, esse princípio sugere que cidadãos devem ser coprodutores do conhecimento urbano, participando ativamente do planejamento e da gestão das cidades.
Nesse contexto, o Design Estratégico se configura como prática que articula múltiplos atores e saberes, transformando a cidade em um espaço de pesquisa viva, em que os moradores deixam de ser receptores passivos de políticas públicas para se tornarem protagonistas no processo de inovação urbana (Buchanan, 1992; Zurlo, 2010). Pedro Demo (1995) distingue entre duas dimensões inseparáveis da ciência: qualidade formal e qualidade política. A primeira diz respeito ao rigor metodológico, clareza e coerência conceitual. A segunda, ao compromisso ético e emancipatório com a sociedade. Aplicado ao Design Estratégico em cidades inteligentes, isso significa que a qualidade de um projeto urbano não deve ser avaliada apenas por métricas de eficiência, mas também por sua capacidade de promover cidadania, equidade social e sustentabilidade. A cidade inteligente, portanto, só é realmente inteligente quando combina excelência técnica com impacto social positivo (Corrêa; Lunardi; Wiedenhoft, 2022).
Ao reunir os aportes de Demo, o Design Estratégico pode ser entendido como prática de mediação crítica. Ele não apenas projeta soluções formais, mas constrói sentidos coletivos que orientam a transformação urbana. Inspirado nos conceitos de Demo, o design estratégico: supera modelos tecnocêntricos, priorizando a emancipação cidadã; articula teoria e prática, tal como no racionalismo aplicado defendido por epistemólogos críticos; valoriza a autoria coletiva, integrando ciência, política e cidadania em processos de inovação social.
A partir da epistemologia crítica de Pedro Demo (1995), o desenvolvimento de Cidades Inteligentes pelo Design Estratégico deve ser compreendido como prática educativa, crítica e emancipatória. Cidades verdadeiramente inteligentes não são aquelas que apenas digitalizam processos, mas aquelas que formam cidadãos autores de seu próprio futuro, capazes de participar ativamente da construção de soluções sustentáveis, inclusivas e transformadoras (Giffinger et al., 2007; Manzini, 2008; Zurlo, 2010).
REFERÊNCIAS
BUCHANAN, Richard. Wicked Problems in Design Thinking. Design Issues, v. 8, n. 2, p. 5–21, 1992.
CORRÊA, Luan; LUNARDI, Guilherme Lerch; WIEDENHOFT, Guilherme Costa. An Analysis of Published Cases on Initiatives of Smart Cities. Amazônia, Organizações e Sustentabilidade, v. 11, n. 1, p. 171, 30 jun. 2022.
DEMO, Pedro. Metodologia Científica em Ciências Sociais. 3a ed. São Paulo: Editora Atlas, 1995.
GIFFINGER, Rudolf et al. Smart cities – Ranking of European medium-sized cities. [S.l.: S.n.].
MANZINI, Ezio. Design para a inovação social e sustentabilidade | Comunidades criativas, organizações colaborativas e novas redes projetuais. Rio de Janeiro: E-papers, 2008.
ZURLO, Francesco. Design Strategico. In: Gli Spazi e le Arti. XXI Secolo. Roma: Istituto dell’Enciclopedia Italiana Giovanni Treccani, 2010. v. IV p. 503–512.