Acadêmico

Um olhar humanizado sobre Design Estratégico e Cidades Inteligentes, a partir da complexidade, aprendizagem social e compromissos éticos

MSc. Jeferson Sigales,  doutorando PPGA-FURG. Pensar o desenvolvimento das cidades no século XXI exige ir além da técnica. Cidades que aspiram ser “inteligentes” não podem restringir sua inteligência ao processamento de dados ou à automação de sistemas. Inteligência urbana é, sobretudo, inteligência humana, cultural e relacional. Nesse sentido, a epistemologia da complexidade de Edgar Morin, a perspectiva histórico-cultural de Lev Vygotsky e a ciência crítica de Pedro Demo oferecem uma base teórica fértil para repensar o Design Estratégico como prática mediadora entre conhecimento, ética e transformação social. Em Ciência com Consciência, Morin (2005) convida a uma reforma do pensamento. Ele afirma que o paradigma da simplificação, que separa, reduz e fragmenta, já não é capaz de compreender os fenômenos humanos em sua totalidade. A realidade é complexa, feita de interações e contradições, de ordem e desordem, de razão e emoção. “A complexidade começa a aparecer, não como inimiga a eliminar, mas como desafio a ser superado” (Morin, 2005, p. 9). Aplicada ao Design Estratégico e às Cidades Inteligentes, essa visão sugere que planejar o futuro urbano exige aceitar a incerteza e integrar saberes múltiplos. A cidade torna-se um organismo vivo, onde tecnologia, cultura e cidadania se entrelaçam em uma teia de interdependências. Para Vygotsky (1991), o conhecimento é construído na relação com o outro. O desenvolvimento humano é um processo social e histórico, mediado pela linguagem e pela cultura. A Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP) é o espaço simbólico em que o indivíduo expande suas possibilidades por meio da interação com pares mais experientes. Ao transpor esse conceito para o contexto urbano, pode-se compreender a cidade como uma ZDP coletiva, onde cidadãos, instituições e tecnologias aprendem uns com os outros. O Design Estratégico, nesse sentido, atua como mediador cultural, criando pontes entre saberes técnicos e saberes cotidianos. A cidade inteligente deixa de ser uma estrutura de controle e passa a ser um ecossistema de aprendizagem, um espaço que educa, inspira e transforma. Pedro Demo (1995) reforça essa dimensão ética ao afirmar que a ciência não é neutra e que o conhecimento deve servir à emancipação. “A ciência não é neutra, nem se resume a técnicas de investigação. Ela é um processo crítico, marcado por escolhas, interesses e compromissos sociais” (Demo, 1995). Essa afirmação ressoa com o propósito do Design Estratégico, que não pode se limitar à eficiência ou à estética, mas precisa atuar como prática política. Projetar uma cidade é projetar modos de viver, conviver e aprender. A qualidade de uma cidade inteligente, portanto, não está apenas na precisão de seus algoritmos, mas na capacidade de incluir, dialogar e educar, princípios daquilo que Demo chama de qualidade política da ciência. Unindo esses três autores, compreendemos que a inteligência de uma cidade emerge da complexidade de suas relações (Morin), da aprendizagem social de seus cidadãos (Vygotsky) e do compromisso ético e político de suas práticas científicas e tecnológicas (Demo). O Design Estratégico, nesse contexto, assume um papel central: conectar pessoas, dados, instituições e significados em processos de coaprendizagem. A cidade inteligente que se propõe humanizada deve ser laboratório vivo de inovação social, lugar de experimentação e construção compartilhada de conhecimento. Assim como o pensamento complexo exige diálogo entre saberes, o design estratégico precisa articular tecnologia, cultura e cidadania, para que a cidade aprenda com seus habitantes e, ao mesmo tempo, os eduque para a corresponsabilidade coletiva. Pensar o futuro das cidades é, antes de tudo, pensar o humano. O legado de Morin, Vygotsky e Demo ensina que não há inovação sem ética, nem inteligência sem convivência. Uma cidade só é verdadeiramente inteligente quando promove aprendizado mútuo, consciência crítica e emancipação social. O Design Estratégico, inspirado nessa tríade teórica, torna-se um ato pedagógico e político: projetar não é apenas resolver problemas, mas tecer relações, construir sentidos e cultivar humanidade. REFERÊNCIAS DEMO, Pedro. Metodologia Científica em Ciências Sociais. 3a ed. São Paulo: Editora Atlas, 1995.  MORIN, Edgar. Ciencia Com Consciencia. 82a ed. [S.l.]: Bertrand Brasil, 2005.  VYGOTSKY. A formação social da mente. 4a ed. São Paulo: Martins Fontes, 1991. 

Design Estratégico e Cidades Inteligentes sob a Perspectiva de Vygotsky: Aprendizagem Social e Mediação Cultural

MSc. Jeferson Sigales,  doutorando PPGA-FURG. O desenvolvimento de Cidades Inteligentes requer mais do que infraestrutura tecnológica; exige a construção de ecossistemas de aprendizagem coletiva e inovação social. A teoria de Lev Vygotsky, especialmente em A formação social da mente (1991), oferece bases epistemológicas para compreender o papel do Design Estratégico como mediador entre cultura, conhecimento e transformação social. Para Vygotsky, o aprendizado humano é sempre mediado e socialmente situado, e o desenvolvimento ocorre por meio da interação entre sujeitos e instrumentos culturais. Essa compreensão amplia a noção de “inteligência” urbana, deslocando-a do domínio técnico para o campo da cocriação de sentido e da aprendizagem social. Vygotsky é apresentado como fundador da psicologia histórico-cultural, que entende o desenvolvimento humano como processo social, histórico e culturalmente mediado. A linguagem, os signos e os instrumentos culturais são elementos centrais desse processo, pois funcionam como mediadores que possibilitam a internalização da experiência coletiva, correlacionando com a Teoria de Semiótica. “A consciência é o resultado da internalização de processos sociais mediada pela linguagem” (Vygotsky, 1991). No contexto das Cidades Inteligentes, essa mediação simbólica pode ser entendida como a capacidade da sociedade de construir significados compartilhados sobre o espaço urbano. O Design Estratégico, por sua vez, atua como prática mediadora que articula linguagens, saberes e tecnologias, criando ambientes que favorecem a aprendizagem coletiva e o pertencimento social. Vygotsky propõe o conceito de Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP), definida como a distância entre o que o indivíduo já é capaz de fazer sozinho e o que pode realizar com a ajuda de outros. A zona de desenvolvimento proximal é a distância entre o nível de desenvolvimento real […] e o nível de desenvolvimento potencial, determinado pela capacidade de resolver um problema sob orientação de um adulto ou em colaboração com companheiros mais capazes (Vygotsky, 1991, p. 58). Esse conceito desloca o foco da aprendizagem individual para a cooperação social. A cidade, portanto, pode ser interpretada como uma grande ZDP coletiva, onde cidadãos, instituições e tecnologias interagem para expandir as capacidades uns dos outros. O Design Estratégico opera dentro dessa zona, facilitando o diálogo entre os atores urbanos e promovendo experiências colaborativas que impulsionam o desenvolvimento social e cognitivo da comunidade. A partir de Vygotsky, o Design Estratégico pode ser compreendido como prática que promove mediação cultural entre sujeitos, tecnologias e contextos. Ele cria condições para a aprendizagem social, que é o núcleo da inteligência urbana. Diferentemente de um modelo de cidade orientado apenas pela eficiência tecnológica, o paradigma vygotskiano propõe uma cidade que aprende, se adapta e se transforma por meio da interação de seus cidadãos. Assim como o desenvolvimento humano depende da internalização de signos e práticas sociais, o desenvolvimento urbano depende da internalização coletiva de valores, objetivos e significados comuns. O Design Estratégico, ao articular esses elementos, atua como agente de transformação social e cognitiva, estimulando a autoria cidadã e a inovação orientada à sustentabilidade. A leitura de Vygotsky ilumina o papel do Design Estratégico como mediador entre cultura, tecnologia e sociedade. Sua concepção de aprendizagem social e mediação simbólica amplia o entendimento de Cidades Inteligentes, que deixam de ser meramente “tecnológicas” para tornarem-se ecossistemas de aprendizagem coletiva e emancipação cidadã. Assim como o desenvolvimento humano é produto de interações mediadas, a inteligência urbana deve emergir das interações sociais e culturais que constroem sentido e promovem inclusão. REFERÊNCIAS VYGOTSKY. A formação social da mente. 4a ed. São Paulo: Martins Fontes, 1991. 

Design Estratégico e o desenvolvimento de Cidades Inteligentes: uma leitura a partir de Pedro Demo

MSc. Jeferson Sigales,  doutorando PPGA-FURG. A discussão sobre Cidades Inteligentes tem sido amplamente pautada pela dimensão tecnológica, com foco em eficiência, conectividade e automação. Contudo, para além da tecnologia, é fundamental compreender o caráter social, político e emancipatório que deve orientar esse processo. Nesse sentido, os aportes teóricos de Pedro Demo oferecem bases para repensar o papel do Design Estratégico como mediador na construção de cidades que sejam não apenas mais conectadas, mas sobretudo mais humanas, inclusivas e sustentáveis (Giffinger et al., 2007; Zurlo, 2010). Pedro Demo rompe com a noção de ciência como prática neutra e meramente técnica. Para ele “A ciência não é neutra, nem se resume a técnicas de investigação. Ela é um processo crítico, marcado por escolhas, interesses e compromissos sociais” (Demo, 1995). Essa compreensão significa que toda prática científica carrega implicações políticas e deve ser avaliada também pelo impacto social que produz. No campo do Design Estratégico e das Cidades Inteligentes, isso implica questionar soluções que priorizam apenas eficiência técnica sem considerar desigualdades e inclusão social. Um dos conceitos mais conhecidos de Demo é o de educar pela pesquisa, no qual aprender significa produzir conhecimento e não apenas reproduzi-lo (Demo, 1995). Aplicado às cidades inteligentes, esse princípio sugere que cidadãos devem ser coprodutores do conhecimento urbano, participando ativamente do planejamento e da gestão das cidades. Nesse contexto, o Design Estratégico se configura como prática que articula múltiplos atores e saberes, transformando a cidade em um espaço de pesquisa viva, em que os moradores deixam de ser receptores passivos de políticas públicas para se tornarem protagonistas no processo de inovação urbana (Buchanan, 1992; Zurlo, 2010). Pedro Demo (1995) distingue entre duas dimensões inseparáveis da ciência: qualidade formal e qualidade política. A primeira diz respeito ao rigor metodológico, clareza e coerência conceitual. A segunda, ao compromisso ético e emancipatório com a sociedade. Aplicado ao Design Estratégico em cidades inteligentes, isso significa que a qualidade de um projeto urbano não deve ser avaliada apenas por métricas de eficiência, mas também por sua capacidade de promover cidadania, equidade social e sustentabilidade. A cidade inteligente, portanto, só é realmente inteligente quando combina excelência técnica com impacto social positivo (Corrêa; Lunardi; Wiedenhoft, 2022). Ao reunir os aportes de Demo, o Design Estratégico pode ser entendido como prática de mediação crítica. Ele não apenas projeta soluções formais, mas constrói sentidos coletivos que orientam a transformação urbana. Inspirado nos conceitos de Demo, o design estratégico: supera modelos tecnocêntricos, priorizando a emancipação cidadã; articula teoria e prática, tal como no racionalismo aplicado defendido por epistemólogos críticos; valoriza a autoria coletiva, integrando ciência, política e cidadania em processos de inovação social. A partir da epistemologia crítica de Pedro Demo (1995), o desenvolvimento de Cidades Inteligentes pelo Design Estratégico deve ser compreendido como prática educativa, crítica e emancipatória. Cidades verdadeiramente inteligentes não são aquelas que apenas digitalizam processos, mas aquelas que formam cidadãos autores de seu próprio futuro, capazes de participar ativamente da construção de soluções sustentáveis, inclusivas e transformadoras (Giffinger et al., 2007; Manzini, 2008; Zurlo, 2010). REFERÊNCIAS BUCHANAN, Richard. Wicked Problems in Design Thinking. Design Issues, v. 8, n. 2, p. 5–21, 1992. CORRÊA, Luan; LUNARDI, Guilherme Lerch; WIEDENHOFT, Guilherme Costa. An Analysis of Published Cases on Initiatives of Smart Cities. Amazônia, Organizações e Sustentabilidade, v. 11, n. 1, p. 171, 30 jun. 2022. DEMO, Pedro. Metodologia Científica em Ciências Sociais. 3a ed. São Paulo: Editora Atlas, 1995. GIFFINGER, Rudolf et al. Smart cities – Ranking of European medium-sized cities. [S.l.: S.n.]. MANZINI, Ezio. Design para a inovação social e sustentabilidade | Comunidades criativas, organizações colaborativas e novas redes projetuais. Rio de Janeiro: E-papers, 2008. ZURLO, Francesco. Design Strategico. In: Gli Spazi e le Arti. XXI Secolo. Roma: Istituto dell’Enciclopedia Italiana Giovanni Treccani, 2010. v. IV p. 503–512. 

Bachelar Diurno no Alvorecer de Cidades Inteligentes a partir do espírito científico

MSc. Jeferson Sigales,  doutorando PPGA-FURG. Este paper tem como objetivo discutir a visão epistemológica do espírito científico pelo Racionalismo Aplicado de Bachelard (1996), tendo como tema a correlação de Design Estratégico e Cidade Inteligentes, considerandos os Obstáculos Epistemológicos, a Ruptura Epistemológica, a Psicanálise do Conhecimento.  Gaston Bachelard (1996) é fundamental na epistemologia contemporânea pois mostra que o conhecimento científico não é linear e cumulativo, mas sim marcado por rupturas e  superação de obstáculos internos do pensamento. Isso ajuda a compreender como novas formas de pensar, como o Design Estratégico e as Cidades Inteligentes, exigem um reposicionamento epistemológico. Nos Obstáculos Epistemológicos, como apresentados pelo autor, o conhecimento não progride de forma linear e acumulativa, pois ele esbarra em resistências internas do próprio pensamento, como crenças herdadas, empirismo ingênuo ou explicações fáceis. Esses obstáculos precisam ser superados para que a ciência avance, pois “é no âmago do próprio ato de conhecer que aparecem […] causas de estagnação e até de regressão, detectaremos causas de inércia às quais daremos o nome de obstáculos epistemológicos” (Bachelard, 1996, p. 17). Uma das alegações do autor é que “Na formação do espírito científico, o primeiro obstáculo é a experiência primeira, a experiência colocada antes e acima da crítica” (p. 29). Isso nos leva a Ruptura epistemológica, no qual Bachelard (1996) argumenta que a ciência avança por rupturas e descontinuidades, quebrando paradigmas anteriores, ou seja, isso significa que inovar exige abandonar modelos ultrapassados, não apenas aprimorá-los. Assim, somos conduzidos a Psicanálise do Conhecimento, que o autor afirma ser é necessário examinar criticamente os apegos afetivos e culturais do pensamento científico, pois muitas vezes, a ciência é travada por metáforas, imagens ou preconceitos enraizados (“O racionalismo aplicado de Bachelard | Epistemologia das Ciências Sociais #07”, 2020; “UOL Pedagogia & Comunicação”, 2017). Bachelard (1996) rejeita tanto o empirismo puro quanto o racionalismo absoluto, pois para o autor, a ciência nasce da dialética entre experiência e razão. Assim, o Racionalismo Aplicado, é o conhecimento científico resulta da interação entre razão e experiência, sendo uma postura em que a teoria orienta a experiência e a experiência valida ou invalida a teoria.  Essa visão de mundo proposta pelo, Bachelard, autointitulado diurno, permitir o aprofundar da discussão para pensarmos novos modelos de organização através do Design Estratégico, que pode ser entendido como a prática que supera “obstáculos epistemológicos” nas organizações e nas cidades, ajudando a abandonar velhos modelos mentais. Esse entendimento, nos possibilita debruçar sobre um dos desafios dos tempos contemporâneos, as cidades, no qual vivem as pessoas, que urgem pelo alvorecer de soluções sustentáveis para problemas recorrentes. As Cidades Inteligentes, são uma noção de ruptura epistemológica que ajuda a pensar que não basta digitalizar processos urbanos; é preciso repensar epistemologicamente o que significa “inteligência” urbana (Corrêa; Lunardi; Wiedenhoft, 2022).  Integrar a teoria e a prática, como o racionalismo aplicado de Bachelard, inspira metodologias híbridas, como a Design Science Research, que unem experimentação prática com formulação conceitual, permitindo vislumbrar um alvorecer de cidades inteligentes a partir do espírito científico. REFERÊNCIAS BACHELARD, Gaston. A formação do espírito científico: contribuição para uma psicanálise do conhecimento. 1a ed. Rio de Janeiro: Contraponto, 1996. v. 5a reimpressão, 2005  CORRÊA, Luan; LUNARDI, Guilherme Lerch; WIEDENHOFT, Guilherme Costa. An Analysis of Published Cases on Initiatives of Smart Cities. Amazônia, Organizações e Sustentabilidade, v. 11, n. 1, p. 171, 30 jun. 2022.  O racionalismo aplicado de Bachelard | Epistemologia das Ciências Sociais #07. , 14 dez. 2020. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=vYy6Pgk8-IY>. Acesso em: 6 set. 2025 UOL Pedagogia & Comunicação. Filosofo Francês Gaston Bachelard, 2017.