MSc. Jeferson Sigales, doutorando PPGA-FURG.
O desenvolvimento de Cidades Inteligentes requer mais do que infraestrutura tecnológica; exige a construção de ecossistemas de aprendizagem coletiva e inovação social. A teoria de Lev Vygotsky, especialmente em A formação social da mente (1991), oferece bases epistemológicas para compreender o papel do Design Estratégico como mediador entre cultura, conhecimento e transformação social. Para Vygotsky, o aprendizado humano é sempre mediado e socialmente situado, e o desenvolvimento ocorre por meio da interação entre sujeitos e instrumentos culturais. Essa compreensão amplia a noção de “inteligência” urbana, deslocando-a do domínio técnico para o campo da cocriação de sentido e da aprendizagem social.
Vygotsky é apresentado como fundador da psicologia histórico-cultural, que entende o desenvolvimento humano como processo social, histórico e culturalmente mediado. A linguagem, os signos e os instrumentos culturais são elementos centrais desse processo, pois funcionam como mediadores que possibilitam a internalização da experiência coletiva, correlacionando com a Teoria de Semiótica. “A consciência é o resultado da internalização de processos sociais mediada pela linguagem” (Vygotsky, 1991).
No contexto das Cidades Inteligentes, essa mediação simbólica pode ser entendida como a capacidade da sociedade de construir significados compartilhados sobre o espaço urbano. O Design Estratégico, por sua vez, atua como prática mediadora que articula linguagens, saberes e tecnologias, criando ambientes que favorecem a aprendizagem coletiva e o pertencimento social.
Vygotsky propõe o conceito de Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP), definida como a distância entre o que o indivíduo já é capaz de fazer sozinho e o que pode realizar com a ajuda de outros.
A zona de desenvolvimento proximal é a distância entre o nível de desenvolvimento real […] e o nível de desenvolvimento potencial, determinado pela capacidade de resolver um problema sob orientação de um adulto ou em colaboração com companheiros mais capazes (Vygotsky, 1991, p. 58).
Esse conceito desloca o foco da aprendizagem individual para a cooperação social. A cidade, portanto, pode ser interpretada como uma grande ZDP coletiva, onde cidadãos, instituições e tecnologias interagem para expandir as capacidades uns dos outros. O Design Estratégico opera dentro dessa zona, facilitando o diálogo entre os atores urbanos e promovendo experiências colaborativas que impulsionam o desenvolvimento social e cognitivo da comunidade.
A partir de Vygotsky, o Design Estratégico pode ser compreendido como prática que promove mediação cultural entre sujeitos, tecnologias e contextos. Ele cria condições para a aprendizagem social, que é o núcleo da inteligência urbana. Diferentemente de um modelo de cidade orientado apenas pela eficiência tecnológica, o paradigma vygotskiano propõe uma cidade que aprende, se adapta e se transforma por meio da interação de seus cidadãos.
Assim como o desenvolvimento humano depende da internalização de signos e práticas sociais, o desenvolvimento urbano depende da internalização coletiva de valores, objetivos e significados comuns. O Design Estratégico, ao articular esses elementos, atua como agente de transformação social e cognitiva, estimulando a autoria cidadã e a inovação orientada à sustentabilidade.
A leitura de Vygotsky ilumina o papel do Design Estratégico como mediador entre cultura, tecnologia e sociedade. Sua concepção de aprendizagem social e mediação simbólica amplia o entendimento de Cidades Inteligentes, que deixam de ser meramente “tecnológicas” para tornarem-se ecossistemas de aprendizagem coletiva e emancipação cidadã. Assim como o desenvolvimento humano é produto de interações mediadas, a inteligência urbana deve emergir das interações sociais e culturais que constroem sentido e promovem inclusão.
REFERÊNCIAS
VYGOTSKY. A formação social da mente. 4a ed. São Paulo: Martins Fontes, 1991.