outubro 2025

Um olhar humanizado sobre Design Estratégico e Cidades Inteligentes, a partir da complexidade, aprendizagem social e compromissos éticos

MSc. Jeferson Sigales,  doutorando PPGA-FURG. Pensar o desenvolvimento das cidades no século XXI exige ir além da técnica. Cidades que aspiram ser “inteligentes” não podem restringir sua inteligência ao processamento de dados ou à automação de sistemas. Inteligência urbana é, sobretudo, inteligência humana, cultural e relacional. Nesse sentido, a epistemologia da complexidade de Edgar Morin, a perspectiva histórico-cultural de Lev Vygotsky e a ciência crítica de Pedro Demo oferecem uma base teórica fértil para repensar o Design Estratégico como prática mediadora entre conhecimento, ética e transformação social. Em Ciência com Consciência, Morin (2005) convida a uma reforma do pensamento. Ele afirma que o paradigma da simplificação, que separa, reduz e fragmenta, já não é capaz de compreender os fenômenos humanos em sua totalidade. A realidade é complexa, feita de interações e contradições, de ordem e desordem, de razão e emoção. “A complexidade começa a aparecer, não como inimiga a eliminar, mas como desafio a ser superado” (Morin, 2005, p. 9). Aplicada ao Design Estratégico e às Cidades Inteligentes, essa visão sugere que planejar o futuro urbano exige aceitar a incerteza e integrar saberes múltiplos. A cidade torna-se um organismo vivo, onde tecnologia, cultura e cidadania se entrelaçam em uma teia de interdependências. Para Vygotsky (1991), o conhecimento é construído na relação com o outro. O desenvolvimento humano é um processo social e histórico, mediado pela linguagem e pela cultura. A Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP) é o espaço simbólico em que o indivíduo expande suas possibilidades por meio da interação com pares mais experientes. Ao transpor esse conceito para o contexto urbano, pode-se compreender a cidade como uma ZDP coletiva, onde cidadãos, instituições e tecnologias aprendem uns com os outros. O Design Estratégico, nesse sentido, atua como mediador cultural, criando pontes entre saberes técnicos e saberes cotidianos. A cidade inteligente deixa de ser uma estrutura de controle e passa a ser um ecossistema de aprendizagem, um espaço que educa, inspira e transforma. Pedro Demo (1995) reforça essa dimensão ética ao afirmar que a ciência não é neutra e que o conhecimento deve servir à emancipação. “A ciência não é neutra, nem se resume a técnicas de investigação. Ela é um processo crítico, marcado por escolhas, interesses e compromissos sociais” (Demo, 1995). Essa afirmação ressoa com o propósito do Design Estratégico, que não pode se limitar à eficiência ou à estética, mas precisa atuar como prática política. Projetar uma cidade é projetar modos de viver, conviver e aprender. A qualidade de uma cidade inteligente, portanto, não está apenas na precisão de seus algoritmos, mas na capacidade de incluir, dialogar e educar, princípios daquilo que Demo chama de qualidade política da ciência. Unindo esses três autores, compreendemos que a inteligência de uma cidade emerge da complexidade de suas relações (Morin), da aprendizagem social de seus cidadãos (Vygotsky) e do compromisso ético e político de suas práticas científicas e tecnológicas (Demo). O Design Estratégico, nesse contexto, assume um papel central: conectar pessoas, dados, instituições e significados em processos de coaprendizagem. A cidade inteligente que se propõe humanizada deve ser laboratório vivo de inovação social, lugar de experimentação e construção compartilhada de conhecimento. Assim como o pensamento complexo exige diálogo entre saberes, o design estratégico precisa articular tecnologia, cultura e cidadania, para que a cidade aprenda com seus habitantes e, ao mesmo tempo, os eduque para a corresponsabilidade coletiva. Pensar o futuro das cidades é, antes de tudo, pensar o humano. O legado de Morin, Vygotsky e Demo ensina que não há inovação sem ética, nem inteligência sem convivência. Uma cidade só é verdadeiramente inteligente quando promove aprendizado mútuo, consciência crítica e emancipação social. O Design Estratégico, inspirado nessa tríade teórica, torna-se um ato pedagógico e político: projetar não é apenas resolver problemas, mas tecer relações, construir sentidos e cultivar humanidade. REFERÊNCIAS DEMO, Pedro. Metodologia Científica em Ciências Sociais. 3a ed. São Paulo: Editora Atlas, 1995.  MORIN, Edgar. Ciencia Com Consciencia. 82a ed. [S.l.]: Bertrand Brasil, 2005.  VYGOTSKY. A formação social da mente. 4a ed. São Paulo: Martins Fontes, 1991. 

Design Estratégico e Cidades Inteligentes sob a Perspectiva de Vygotsky: Aprendizagem Social e Mediação Cultural

MSc. Jeferson Sigales,  doutorando PPGA-FURG. O desenvolvimento de Cidades Inteligentes requer mais do que infraestrutura tecnológica; exige a construção de ecossistemas de aprendizagem coletiva e inovação social. A teoria de Lev Vygotsky, especialmente em A formação social da mente (1991), oferece bases epistemológicas para compreender o papel do Design Estratégico como mediador entre cultura, conhecimento e transformação social. Para Vygotsky, o aprendizado humano é sempre mediado e socialmente situado, e o desenvolvimento ocorre por meio da interação entre sujeitos e instrumentos culturais. Essa compreensão amplia a noção de “inteligência” urbana, deslocando-a do domínio técnico para o campo da cocriação de sentido e da aprendizagem social. Vygotsky é apresentado como fundador da psicologia histórico-cultural, que entende o desenvolvimento humano como processo social, histórico e culturalmente mediado. A linguagem, os signos e os instrumentos culturais são elementos centrais desse processo, pois funcionam como mediadores que possibilitam a internalização da experiência coletiva, correlacionando com a Teoria de Semiótica. “A consciência é o resultado da internalização de processos sociais mediada pela linguagem” (Vygotsky, 1991). No contexto das Cidades Inteligentes, essa mediação simbólica pode ser entendida como a capacidade da sociedade de construir significados compartilhados sobre o espaço urbano. O Design Estratégico, por sua vez, atua como prática mediadora que articula linguagens, saberes e tecnologias, criando ambientes que favorecem a aprendizagem coletiva e o pertencimento social. Vygotsky propõe o conceito de Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP), definida como a distância entre o que o indivíduo já é capaz de fazer sozinho e o que pode realizar com a ajuda de outros. A zona de desenvolvimento proximal é a distância entre o nível de desenvolvimento real […] e o nível de desenvolvimento potencial, determinado pela capacidade de resolver um problema sob orientação de um adulto ou em colaboração com companheiros mais capazes (Vygotsky, 1991, p. 58). Esse conceito desloca o foco da aprendizagem individual para a cooperação social. A cidade, portanto, pode ser interpretada como uma grande ZDP coletiva, onde cidadãos, instituições e tecnologias interagem para expandir as capacidades uns dos outros. O Design Estratégico opera dentro dessa zona, facilitando o diálogo entre os atores urbanos e promovendo experiências colaborativas que impulsionam o desenvolvimento social e cognitivo da comunidade. A partir de Vygotsky, o Design Estratégico pode ser compreendido como prática que promove mediação cultural entre sujeitos, tecnologias e contextos. Ele cria condições para a aprendizagem social, que é o núcleo da inteligência urbana. Diferentemente de um modelo de cidade orientado apenas pela eficiência tecnológica, o paradigma vygotskiano propõe uma cidade que aprende, se adapta e se transforma por meio da interação de seus cidadãos. Assim como o desenvolvimento humano depende da internalização de signos e práticas sociais, o desenvolvimento urbano depende da internalização coletiva de valores, objetivos e significados comuns. O Design Estratégico, ao articular esses elementos, atua como agente de transformação social e cognitiva, estimulando a autoria cidadã e a inovação orientada à sustentabilidade. A leitura de Vygotsky ilumina o papel do Design Estratégico como mediador entre cultura, tecnologia e sociedade. Sua concepção de aprendizagem social e mediação simbólica amplia o entendimento de Cidades Inteligentes, que deixam de ser meramente “tecnológicas” para tornarem-se ecossistemas de aprendizagem coletiva e emancipação cidadã. Assim como o desenvolvimento humano é produto de interações mediadas, a inteligência urbana deve emergir das interações sociais e culturais que constroem sentido e promovem inclusão. REFERÊNCIAS VYGOTSKY. A formação social da mente. 4a ed. São Paulo: Martins Fontes, 1991. 

Design Estratégico e o desenvolvimento de Cidades Inteligentes: uma leitura a partir de Pedro Demo

MSc. Jeferson Sigales,  doutorando PPGA-FURG. A discussão sobre Cidades Inteligentes tem sido amplamente pautada pela dimensão tecnológica, com foco em eficiência, conectividade e automação. Contudo, para além da tecnologia, é fundamental compreender o caráter social, político e emancipatório que deve orientar esse processo. Nesse sentido, os aportes teóricos de Pedro Demo oferecem bases para repensar o papel do Design Estratégico como mediador na construção de cidades que sejam não apenas mais conectadas, mas sobretudo mais humanas, inclusivas e sustentáveis (Giffinger et al., 2007; Zurlo, 2010). Pedro Demo rompe com a noção de ciência como prática neutra e meramente técnica. Para ele “A ciência não é neutra, nem se resume a técnicas de investigação. Ela é um processo crítico, marcado por escolhas, interesses e compromissos sociais” (Demo, 1995). Essa compreensão significa que toda prática científica carrega implicações políticas e deve ser avaliada também pelo impacto social que produz. No campo do Design Estratégico e das Cidades Inteligentes, isso implica questionar soluções que priorizam apenas eficiência técnica sem considerar desigualdades e inclusão social. Um dos conceitos mais conhecidos de Demo é o de educar pela pesquisa, no qual aprender significa produzir conhecimento e não apenas reproduzi-lo (Demo, 1995). Aplicado às cidades inteligentes, esse princípio sugere que cidadãos devem ser coprodutores do conhecimento urbano, participando ativamente do planejamento e da gestão das cidades. Nesse contexto, o Design Estratégico se configura como prática que articula múltiplos atores e saberes, transformando a cidade em um espaço de pesquisa viva, em que os moradores deixam de ser receptores passivos de políticas públicas para se tornarem protagonistas no processo de inovação urbana (Buchanan, 1992; Zurlo, 2010). Pedro Demo (1995) distingue entre duas dimensões inseparáveis da ciência: qualidade formal e qualidade política. A primeira diz respeito ao rigor metodológico, clareza e coerência conceitual. A segunda, ao compromisso ético e emancipatório com a sociedade. Aplicado ao Design Estratégico em cidades inteligentes, isso significa que a qualidade de um projeto urbano não deve ser avaliada apenas por métricas de eficiência, mas também por sua capacidade de promover cidadania, equidade social e sustentabilidade. A cidade inteligente, portanto, só é realmente inteligente quando combina excelência técnica com impacto social positivo (Corrêa; Lunardi; Wiedenhoft, 2022). Ao reunir os aportes de Demo, o Design Estratégico pode ser entendido como prática de mediação crítica. Ele não apenas projeta soluções formais, mas constrói sentidos coletivos que orientam a transformação urbana. Inspirado nos conceitos de Demo, o design estratégico: supera modelos tecnocêntricos, priorizando a emancipação cidadã; articula teoria e prática, tal como no racionalismo aplicado defendido por epistemólogos críticos; valoriza a autoria coletiva, integrando ciência, política e cidadania em processos de inovação social. A partir da epistemologia crítica de Pedro Demo (1995), o desenvolvimento de Cidades Inteligentes pelo Design Estratégico deve ser compreendido como prática educativa, crítica e emancipatória. Cidades verdadeiramente inteligentes não são aquelas que apenas digitalizam processos, mas aquelas que formam cidadãos autores de seu próprio futuro, capazes de participar ativamente da construção de soluções sustentáveis, inclusivas e transformadoras (Giffinger et al., 2007; Manzini, 2008; Zurlo, 2010). REFERÊNCIAS BUCHANAN, Richard. Wicked Problems in Design Thinking. Design Issues, v. 8, n. 2, p. 5–21, 1992. CORRÊA, Luan; LUNARDI, Guilherme Lerch; WIEDENHOFT, Guilherme Costa. An Analysis of Published Cases on Initiatives of Smart Cities. Amazônia, Organizações e Sustentabilidade, v. 11, n. 1, p. 171, 30 jun. 2022. DEMO, Pedro. Metodologia Científica em Ciências Sociais. 3a ed. São Paulo: Editora Atlas, 1995. GIFFINGER, Rudolf et al. Smart cities – Ranking of European medium-sized cities. [S.l.: S.n.]. MANZINI, Ezio. Design para a inovação social e sustentabilidade | Comunidades criativas, organizações colaborativas e novas redes projetuais. Rio de Janeiro: E-papers, 2008. ZURLO, Francesco. Design Strategico. In: Gli Spazi e le Arti. XXI Secolo. Roma: Istituto dell’Enciclopedia Italiana Giovanni Treccani, 2010. v. IV p. 503–512.