Quando a cidade desafia nossas certezas
A HORA DO SUL | Sexta-feira, 19 de dezembro de 2025. Toda cidade carrega uma porção de certezas: onde é seguro caminhar, como o trânsito funciona, o que dá ou não dá certo por aqui. Mas será que essas certezas ajudam ou atrapalham a imaginar uma cidade melhor? Essa é uma pergunta que ecoa nas ideias de Gaston Bachelard, filósofo francês que se dedicou a entender como pensamos a ciência e o conhecimento. Para ele, não aprendemos simplesmente somando novas informações. Aprendemos mesmo quando conseguimos romper com o que ele chama de “experiência primeira”, aquela sensação de que já sabemos, de que basta olhar ou viver algo uma vez para entender como aquilo funciona. A experiência primeira, segundo Bachelard, é um obstáculo. Não porque ela esteja errada, mas porque nos impede de aprofundar. É como se o costume nos cegasse para o novo. E se pensarmos nas cidades, percebemos o quanto isso é real. Quantas vezes aceitamos o trânsito caótico, a falta de espaços públicos ou a ausência de diálogo entre gestão e população como algo “normal”? Quantas vezes desistimos de propor algo diferente porque “aqui é assim mesmo”? A experiência primeira não se limita a um momento inicial. Ela se cristaliza como verdade. Torna-se a base de um pensamento que não se renova. Por isso, para Bachelard, avançar no conhecimento exige romper com essas ideias sedimentadas. Exige rupturas. E mais: exige aceitar que o conhecimento também é um processo de desconstrução. Refletir com Bachelard nos ajuda a perceber que transformar uma cidade começa por transformar o nosso jeito de pensar sobre ela. E é aí que entra o Design Estratégico. Essa abordagem entende a cidade como um sistema vivo, cheio de tensões e possibilidades, que só pode ser transformado quando escutamos mais e julgamos menos. O design, nesse contexto, não serve para dar respostas prontas, mas para provocar boas perguntas. Para criar espaços de escuta, de ruptura com o óbvio, de invenção coletiva. O Design Estratégico atua como mediador entre diferentes saberes e interesses. Ele desafia soluções automáticas e propõe processos colaborativos, onde a inteligência coletiva é protagonista. Ele ajuda a desconstruir a ideia de que algumas pessoas sabem tudo enquanto outras apenas executam. Em uma cidade que aprende, todos têm algo a ensinar. E todos têm algo a questionar. A cidade inteligente não é a que tem mais sensores ou aplicativos. É a que tem mais capacidade de rever suas certezas. É aquela que reconhece que saber não vem apenas de dados, mas também da abertura para mudar de ideia. Nesse sentido, o Design Estratégico e o pensamento de Bachelard se encontram: ambos reconhecem que para transformar é preciso duvidar. Duvidar do que parece natural, inevitável, inquestionável. Dialogar com Bachelard nos lembra que uma cidade melhor se constrói quando deixamos de lado a experiência primeira e nos colocamos em estado de aprendizagem. Porque só aprende quem aceita duvidar do que pensa que já sabe. E talvez seja nesse movimento de dúvida, escuta e reinvenção que comece a verdadeira inteligência urbana e coletiva. Jeferson SigalesProfessor (IFSul), pesquisador (FURG) e CEO no Instituto Sigales